Irmãos baleados por PM em Maceió apanharam antes de morrer, diz testemunha durante audiência

A segunda audiência de instrução e julgamento do acusado da morte dos irmãos Josivaldo Ferreira Aleixo e Josenildo Ferreira Aleixo, e do pedreiro Reinaldo da Silva Ferreira, acontece nesta terça-feira (27). Eles foram assassinados durante uma ação da Polícia Militar em 2016, no Village Campestre, em Maceió.

Os três policiais militares que participaram da ação foram indiciados e afastado das ruas. Apenas um deles foi preso e responde pelos homicídios, o cabo Johnerson Simões Marcelino. A audiência deve definir se o acusado vai ou não a júri popular. Os demais serão julgados apenas por fraude processual, mas não vão enfrentar júri popular.

Uma testemunha do crime, que não pode ser identificada a pedido do juiz Geraldo Amorim, que conduz a audiência, contou que os irmãos, um de 18 e outro de 16 anos, apanharam dos policiais e revidaram a agressão, antes de serem baleados.

“Foram dois policiais que revistaram os dois meninos. Os meninos estavam na parede e [os PMs] começaram a bater. Todo mundo que estava no ponto gritava ‘para, para, para’. Um dos meninos bateu com a mão no rosto do policial, acho que cansado de apanhar. Um dos policiais ajudou o outro parceiro. Então, nesse momento, saiu um policial de dentro do carro e atirou no menino”, contou a testemunha.

“Teve um momento que, enquanto um atirava, o outro chutava com o pé. Nenhum dos meninos estava armado. A única arma foi a própria mão no rosto do policial”, relatou.

Antes da testemunha, a mãe dos irmãos, Maria de Fátima Ferreira da Silva, também prestou depoimento e negou mais uma vez a versão da PM, de que eles estavam armados. “Há boato de que foi o policial [que os matou]. Eles não tinham capacidade de andar armado e não usavam drogas”.

Josivaldo e Josenildo Aleixo tinham deficiência intelectual e estudavam na Associação Pestalozzi. Questionada pelo juiz qual a idade mental dos filhos, ela disse que tinham 10 anos.

Antes do início da audiência, o advogado que representa a família do pedreiro disse que o objetivo é submeter o acusado a um corpo de jurados. “A audiência é para colher elementos e provas para que o cabo Jhonson seja levado a júri popular. É para que não caia em esquecimento. Há um réu preso e esperamos que continue assim”, disse o advogado Thiago Bonfim.

Segundo a versão dos PMs que participaram da ocorrência, os irmãos reagiram a uma abordagem policial e houve troca de tiros. O pedreiro passava pelo local e acabou atingido no suposto tiroteio. A promotoria contesta essa versão.

Em depoimento à polícia, ainda no andamento do inquérito, a filha de Silva disse que ele conhecia os jovens e que tentou defendê-los da abordagem abusiva dos militares.

Josivaldo Ferreira Aleixo e Josenildo Ferreira Aleixo foram mortos em 2016, durante uma ação da polícia; na ocasião, também morreu o pedreiro Reinaldo da Silva Ferreira (Foto: Reprodução/TV Gazeta)

Josivaldo Ferreira Aleixo e Josenildo Ferreira Aleixo foram mortos em 2016, durante uma ação da polícia; na ocasião, também morreu o pedreiro Reinaldo da Silva Ferreira (Foto: Reprodução/TV Gazeta)