As consequências do afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema em Maceió ultrapassaram a perda de imóveis e a mudança de endereço de milhares de famílias. Nos bairros atingidos, a desocupação também rompeu vínculos comunitários e afetou manifestações culturais construídas ao longo de gerações.
Entre os grupos que enfrentam esse desafio está a família do mestre Verdelinho das Alagoas, referência do coco de roda no estado. Nildo Verdelinho, filho e herdeiro desse legado, mantém as atividades na Casa de Taipa Mestre Verdelinho, localizada entre Chã da Jaqueira e Bebedouro, próxima às áreas atingidas pelo processo de desocupação.
No espaço, são preservadas manifestações como o pagode, o coco de roda tradicional, o Guerreiro Alagoano e as Baianas, expressões que fazem parte da memória cultural de Maceió.
A retirada dos moradores dos bairros atingidos, entre eles Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e áreas do Farol, provocou uma dispersão dos integrantes desses grupos. Segundo relatos apresentados na reportagem, cerca de 60 mil pessoas precisaram deixar suas casas, alterando profundamente a dinâmica das comunidades.
Com os brincantes espalhados por diferentes regiões da cidade, manter os grupos reunidos passou a exigir mobilização constante. Ensaios e apresentações, que antes aconteciam próximos às comunidades, agora dependem de deslocamentos e articulações para reunir os participantes.
“Sem público, não existe apresentação. Sem integrantes, não existe grupo”, resume Nildo, ao lembrar os efeitos da desocupação sobre as manifestações culturais.
Além da distância, outro obstáculo é o custo para manter as atividades. O transporte dos integrantes para os ensaios, realizados diversas vezes ao mês, muitas vezes é custeado pelo próprio mestre.
Para ele, preservar essas manifestações significa impedir que parte da história de Maceió seja apagada.
“Não pode deixar de existir. A gente não consegue se acostumar e falar no passado de jeito nenhum”, afirma.
Uma perda que vai além das casas
O impacto sobre a cultura também é percebido por outros agentes culturais. Nonato Lopes, fundador do Núcleo Cultural Zona Sul e organizador do Agosto da Cultura Popular, lembra que o processo de desocupação representou muito mais do que a retirada de móveis e famílias.
Segundo ele, o deslocamento das comunidades rompeu relações construídas durante décadas. Vizinhanças, encontros, referências e espaços de convivência que ajudavam a manter manifestações culturais foram desfeitos.
A situação também afetou o grupo Pau de Arara, ligado à tradição do coco de roda. Para o fundador Ivanaldo Júnior, a mudança não representou apenas uma alteração de endereço, mas uma transformação na maneira como as pessoas se encontravam e vivenciavam a cultura.
Apesar disso, músicas, instrumentos, passos, costumes e outras características das manifestações continuam sendo preservados pelos integrantes.
A antropóloga e pesquisadora da cultura popular Lívia Monteiro explica que uma manifestação cultural não existe isoladamente. Ela depende das pessoas, das relações construídas entre elas e do território onde essa convivência acontece.
Por isso, quando uma comunidade é retirada de seu espaço, a cultura pode continuar, mas parte dos vínculos que davam sentido à manifestação é afetada. O fenômeno é descrito pela pesquisadora como uma forma de desterritorialização da cultura.
Resistência para manter a memória viva
Mesmo diante das dificuldades, iniciativas culturais vêm trabalhando para reorganizar os grupos e manter vivas as tradições associadas aos territórios atingidos.
Entre as ações está a Rota de RExistência, calendário cultural voltado à preservação da memória e ao fortalecimento dos vínculos comunitários. Também fazem parte desse movimento projetos como “Maceió Não Esquece: Cultura e Memória dos Territórios Antigos” e o podcast SoloCaeté – Comunicação Comunitária.
As iniciativas buscam registrar histórias, reunir agentes culturais e criar novos espaços para manifestações tradicionais.
Para Dilma Carvalho, presidente do Comitê Gestor dos Danos Extrapatrimoniais do programa Nosso Chão, Nossa História, a retomada dessas atividades representa uma forma de reparação aos chamados danos invisíveis provocados pelo desastre socioambiental.
A cultura, nesse contexto, funciona como instrumento de pertencimento e reconstrução. Ao ocupar novos espaços, os grupos não apenas apresentam suas manifestações, mas também ajudam a reconstruir parte da história dos territórios que foram desocupados.
Casa de Taipa busca preservar legado
A Casa de Taipa Mestre Verdelinho é um dos espaços que simbolizam esse esforço de preservação. O local reúne elementos importantes da cultura popular alagoana e mantém tradições transmitidas entre gerações.
De acordo com Nildo Verdelinho, entretanto, o espaço necessita de uma obra de contenção para garantir a segurança da estrutura. A intervenção, segundo ele, depende da Prefeitura de Maceió.
Entre os elementos preservados está um chapéu de guerreiro confeccionado artesanalmente pela mestra Divânia Oliveira, reconhecida como patrimônio vivo de Alagoas.
Para Nildo, manter o espaço funcionando é também uma maneira de assegurar que as novas gerações conheçam as histórias e manifestações que ajudaram a construir a identidade cultural da cidade.
Programação reforça cultura popular
O Dia Nacional da Cultura Popular, celebrado em 22 de agosto, será marcado por uma programação dedicada às tradições alagoanas e à memória dos territórios afetados pelo caso Braskem.
As atividades começam em 17 de agosto e incluem cortejos, debates, oficinas, apresentações de coco de roda, mamulengo, capoeira, bumba-meu-boi, repentistas, fanfarra, percussão e escola de samba.
A programação também inclui debates sobre patrimônio, cultura popular, resistência e reinvenção da cidade, além da exposição itinerante “Lagoa em Sítio”.
Mais do que preservar apresentações, os projetos buscam manter vivas as histórias de pessoas e comunidades que tiveram suas trajetórias alteradas pela desocupação.
Em meio às mudanças provocadas pelo afundamento do solo, a cultura aparece como uma das formas de resistência. Para quem permanece trabalhando pela preservação dessas tradições, manter os grupos ativos significa garantir que os territórios atingidos não sejam lembrados apenas pelas perdas, mas também pelas histórias, manifestações e identidades que ajudaram a construir Maceió.

